Facebook

“Não é hora de sair do Facebook” Por Bruno Cava

Artigo perfeito de Bruno Cava, tenho 100% de acordo. Há tempos desacredito da tese de neutralidade da internet, nós de esquerda, na internet, estamos ainda no patamar de resistência nas pequenas fissuras que conquistamos nas plataformas digitais (redes sociais), mas precisamos avançar e disputar a internet com mais força, com nossas redes digitais em parceria com as organizações políticas presenciais, sem a exploração comercial de nossas individualidades e a censura de nossos conteúdos.

Não é hora de sair do Facebook

É preciso assumir nosso tempo em todos seus paradoxos, contradições e perplexidades. Ao capitalismo cognitivo, corresponde um movimento em enxame

Por Bruno Cava no Outras Palavras

Houve época em que a blogosfera era um território bárbaro. Na década de 90, começando com os BBS (Bulletin Board System), as newsletters (principalmente do UOL) e os chats do mIrc, tudo era novo. Vigia uma liberdade radical. As pessoas se encontravam e no caos debatiam, brigavam, se abraçavam e se amavam. O acesso, ainda limitado às subculturas geek e hacker, começava a ampliar-se para a classe média. Tempos em que as redes sociais participavam de um processo contracivilizatório — embora minúsculo, quase guetificado. Éramos felizes e não sabíamos.

Então veio o bum da new economy e tudo mudou. Como acontece com qualquer força produtiva, as redes foram tomadas de assalto. Mercantilizadas, formatadas, uma avalanche de publicidade. A Nasdaq bombou com o mercado pontocom. Os hackers passaram a prestar às empresas consultoria de segurança digital. Os geeks se converteram em yuppies na crista do sistema. Até a bolha estourar, cada ex-geek talentoso sonhava em ser milionário. E alguns conseguiram. Grandes pequenas empresas pipocaram overnight para privatizar as redes, gerir marcas e capitalizar nas finanças. Perceberam o manancial de produtividade circulante e precipitaram os seus tentáculos e ventosas.

Nos anos 2000, o número de pessoas enredadas multiplicou muitas vezes. As redes se ramificaram, se enraizaram na economia política, se miscigenaram: constituiu-se uma rede de redes. Muito mais do que ferramenta ou meio instrumental, a rede é ela própria um espaço social construtivo, um conjunto de relações sociais que organiza, articula, comunica, potencializa e enriquece a vida. É um campo comum na confluência de culturas, éticas, políticas e socialidades, uma cauda longa, multifacetada e atravessada das forças vivas.

A internet não é mais um mundo, é a própria mundivivência na sua modulação mais intensiva. As redes se tornaram o terreno por excelência das articulações produtivas, da antropogênese (a criação do homem pelo homem) e, portanto, das tentativas de expropriar o trabalho social e a potência de vida que todos investem nessa virtualidade tão real.

Com o mínimo de estrutura, geralmente um petit comité de gestores, advogados e publicitários, erigiu-se o paraíso para capitalistas 2.0, como Bill Gates (da Microsoft) e Steve Jobs (da Apple). Eles externalizaram as internalidades negativas e onerosas ao passo que internalizavam as externalidades positivas e gratuitas. Ou seja, souberam explorar os fluxos criativos, difusos, capilares — amiúde anônimos, multitudinários — que surgem espontaneamente na rede. Concomitantemente, transformaram-se em mestres copyright, outsourcing (tercerização), marketing, brand management, networking, crowdsourcing e quejandos. Assim nasceu a economia criativa, a indústria do copyright — a vampirização da produção social e coletiva por empresas, marcas e governos.

Chegou-se então à era Mark Zuckerberg, o criador do Facebook e eleito homem do ano pela revista Time em 2010. As redes sociais estão inteiramente colonizadas. Outro ser humano vive, com outra percepção socioambiental, outro modo de sentir e relacionar-se. Agora, não há mais nada fora do processo de capitalização das relações sociais. Não dá mais para sair. Fazem o Facebook ser o Facebook as 800 milhões de pessoas pelo mundo, e contando. Dessas, 400 milhões o utilizam todos os dias sem falta: 350 milhões pelo celular ou iPad, que carregam consigo o tempo todo. Cerca de 250 milhões de fotos são subidas diariamente. A partir do Facebook, a atividade de cada um é organizada e integrada num gigantesco ecossistema.

Todo o valor do Facebook nasce do tempo de vida, da atenção e das relações investidas na rede por esse quase um bilhão de pessoas. Se não houvesse ninguém conectado, por melhor que fosse o algoritmo, o Facebook não valeria nada. Mas, quanto desse imenso valor retorna para os usuários? Onde está a remuneração pela nossa construção do Facebook? E quanto é capturado como mais-valor para forjar dezenas de milionários e o bilionário Zuckerberg?

A Internet, aliás, nunca esteve tão ‘social’ quanto agora. As redes sociais engoliram a velha rede baseada na navegação livre e anônima, nos prendendo a uma territorialidade, que é o nosso próprio ‘perfil real’, isto é, à nossa identidade fora da rede, o que traz junto, por tabela, chefes, contatos, amigos, colegas de trabalho e escola/faculdade, além dos parentes — é a partir desse perfil que as pessoas passam a navegar, compartilhando links e fotos (suas vidas…) de tal modo que a navegação torna-se ancorada e identificada por definição — Hugo Albuquerque, no Descurvo

Hugo Albuquerque não está contestando o realismo das redes de redes, o fato de elas trocarem energia com o que de mais real existe: a dor, a resistência, a ternura, a loucura. Não defende o aspecto lúdico, como se as redes transcendessem a vida, noutro plano de existência. Não é isso. Refere-se, na verdade, ao processo de codificação e disciplinamento que sofremos. Esse o social entre aspas, como na expressão fazer uma “social”.

Gentrificaram a internet. Mais do que outros mecanismos, o Facebook vem conseguindo sedimentar a identidade de cada um. E assim participa de um ritual que busca converter bárbaros em usuários comportados, hackers em criminosos sexuais e revolucionários em blogosfera progressista. E tenta assumir o controle sobre a intensificada antropogênese, a autoprodução de sujeitos e formas de vida, que as redes fermentam. A gênese social é mais uma vez capturada pelas instituições clássicas de expropriação: a empresa, o estado, a família:

empresa, ao ocupar o território cognitivo de cada um e o próprio cada um como processo e produto da cognição. Não apenas assaltar o campo visual e auditivo e semiótico pela publicidade, mas dirigir a atenção, formatar estéticas, homogeneizar mundos e vendê-los como estilos de vida. O tempo de vida é milimetricamente colonizado, até o nível subliminar do subconsciente, dos impulsos e sonhos.

estado, ao garantir o espaço social em que as empresas atuam e lucram, na velha dialética do público e do privado. Integrado globalmente, o estado controla as redes para assegurar o copyright, o direito autoral, a identificação individual, a propriedade sobre o trabalho social (crowdsourcing) e a financeirização dos lucros (rentismo). Movimentos contestatórios — Wikileaks, Anonymous, cultura livre, novas mídias antijornalísticas — passam a ser sistematicamente desacreditados e criminalizados. Em tempos de redes sociais, nenhum estado precisa mais interrogar ou torturar os cidadãos: basta extrair seus dados da internet.

família, ao enquadrar a pessoa nas múltiplas normatividades de convívio social e consumo, servindo como polícia próxima nas várias dimensões: moral, ideológica, sexual, cosmética e estética.

Apesar de tudo, o antagonismo persiste, dentro e contra. É preciso resistir e ocupar. Não é hora para saudosismos. A luta central está em imergir na ecologia das redes sociais e, do interior, transbordar dos aparelhos de captura e expropriação. Daí que, talvez, a melhor tática não seja sair do Facebook para a N-1 ou Anillosur, numa nostalgia de bom selvagem, mas ocupar maciçamente e democratizar o próprio Facebook.

É preciso assumir o tempo que se vive no conjunto de seus paradoxos, contradições e perplexidades. Ao capitalismo cognitivo, corresponde um movimento social em enxame, que aparece no software livre, na cultura digital, na blogosfera não-progressista, em diversos grupos e coletivos altamente politizados e produtivos, que cooperam e convivem fora da lógica da captura. São as múltiplas corrosões e resistências por dentro do império, os índios da metrópole que já estão dentro. Eles sabem que não é possível voltar atrás, então resolvem ir ainda mais fundo na sua guerra antropofágica contra a civilização.

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