Cibercultura

Cibercultura: Você humano é um aplicativo?

Comecei hoje a ler o livro “Gadget – Você não é um aplicativo” do Jaron Lanier, cientista da velha guarda do Vale do Silício, um dos responsáveis por cunhar o termo “Inteligência artificial”. Segundo a revista Time (2010), esse rastafari de 51 anos, apelidado de “o marginal do vale do silício”, é uma das 100 personalidades mais influentes no mundo.

O Livro tem 248 páginas e uma linguagem acessível que flui rapidamente, com pouquíssimas citações e nehuma bibliografia, “Gadget” é um livro relato, filosófico e pessimista sobre a atualidade e futuro da cibertecnologia em relação a nossa cultura, em especial no design de softwares e na apropriação corporativa do uso da internet.

Jaron Lanier

Os pessimistas da Cibercultura sempre me pareceram interessantes. Comecei minha leituras no tema por eles, Baudrillard e Virilio estão entre meus preferidos, tenho certeza que aprendi muito com eles, nadar contra a corrente nos faz pensar o que seria “impensável”, procurar atrito nas idéias é essencial, como afirma Wittgenstein (citei aqui no blog em 2006):

“Chegamos ao gelo escorregadio em que não há atrito e onde, portanto, em certo sentido, as condições são ideais, mas onde também, justamente por isso, não conseguimos andar. Queremos andar, portanto precisamos de atrito. De volta a terra firme!”  Wittgenstein – Investigações filosóficas, 107.

Ainda que fã da “turma do contra”, não me entendo como pessismista com relação a internet, me colocaria como um realista que acredita na necessidade de ver a internet levando em conta sua complexidade, não apenas seu impacto na comunicação, relevante sem dúvida, mas infinitamente pequeno perto da influência em setores como o financeiro.

Sigamos a leitura impressa então, deixo abaixo o prefácio do livro,  já bem provocativo.

Estamos no início do século XXI, o que significa que estas palavras serão lidas em grande parte por “não pessoas” –  autômatos ou multidões entorpecidas compostas de pessoas que deixaram de agir como indivíduos. As palavras serão moídas até se transformarem em palavras-chave atomizadas para ferramentas de busca dentro de instalações industriais de nuvens computacionais em locais muitas vezes secretos e remotos ao redor do mundo. Elas serão copiadas milhões de vezes por algoritmos elaborados para enviar um anúncio em algum lugar a alguma pessoa que possa ter algum interesse em algum fragmento do que eu digo. Elas serão escaneadas, reprocessadas e deturpadas por multidões de leitores rápidos e pouco atentos em wikis e agregadas automaticamente em streams de mensagens de texto sem fio.

As reações se degenerarão repetidamente em cadeias descuidadas de insultos anônimos e controvérsias inarticuladas. Algoritmos encontrarão correlações entre aqueles que leem minhas palavras e as compras que fazem, suas aventuras românticas, suas dívidas e, em breve, seus genes. No final, estas palavras contribuirão para o destino daqueles poucos que conseguiram se posicionar como senhores das nuvens computacionais.

A ampla disseminação do destino destas palavras ocorrerá quase inteiramente no mundo sem vida das informações puras. Olhos humanos lerão estas palavras apenas em uma minúscula minoria dos casos.

No entanto, é você, a pessoa, a raridade entre meus leitores, que espero atingir.
As palavras deste livro foram escritas para pessoas, não computadores.
Minha mensagem é: você precisa ser alguém antes de poder se revelar.

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2 comentários sobre “Cibercultura: Você humano é um aplicativo?

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