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Quatro indagações constrangedoras para a esquerda da Sociedade da Informação

Nem tudo são flores na dita sociedade da informação, ainda que eu concorde com vários avanços estruturais que uma sociedade hiperconectada é capaz de gerar ao todo da população, ainda que me identifique com elementos do otimismo de Lévy, por exemplo, não consigo deixar de constatar contradições inerentes do capitalismo crescendo dentro de um senso comum de viva a web, dá até para se dizer, contradições da velha tensão Capital versus Trabalho da sociedade industrial.

Lixão de equipamentos eletrônicos em Gana (África Ocidental foto: Pieter Hugo)

Não tenho dúvida alguma de que a lua de mel com a internet precisa acabar rápido, que devemos disputar esse meio com a maior clareza possível dos seus limites e contradições. Sendo assim, quero deixar aqui quatro indagações constrangedoras para a esquerda, que otimista, milita “em rede”, assoberbada por suas nova tese multiculturalista de defesa intransigente da sociedade da informação.

Questão 1 – Consumo de Energia: Gadgets, infra-estrutura de conexão e datacenters, já estão entre os setores de maior consumo de energia do Planeta, segundo a AIE – Agência Internacional de Energia (IEA em Inglês), os datacenters do mundo consomem 1,5% da energia produzida no planeta, só o Google corresponde a 0,01% desse montante. Os aparelhos eletrônicos já correspondem a mais de 15% do consumo de energia domiciliar, triplicando até 2030. No Brasil, com o PNBL – Plano Nacional de Banda Larga – sendo aplicado, e a massificação da internet no país sendo uma realidade, novas hidroelétricas serão necessárias. Qual a alternativa construída na rede para essa crise energética?

Questão 2 – O Lixo eletrônico: 1,5 bilhões de celulares são substituídos por ano, junto com demais gadgets, a cada 12 meses, totalizam 150 milhões de toneladas de lixo eletrônico, ou e-waste, segundo dados da ONU. No Brasil a reciclagem de eletrônicos não chega a 1%. Nos últimos cinco anos, mais de um bilhão de PCs foram desativados em todo o mundo. O plástico, um dos materiais de maior demora de decomposição na natureza, é o principal produto da fabricação de computadores, mais ou menos 30% de uma máquina é derivada do velho Petróleo. Objetivamente, que mobilização virtual tem-se para tal problema?

Questão 3 – Extração de Minérios: Dias atrás fiz um post¹ sobre o mercado ilegal da extração de minérios na África. No leste do Congo a extração para o setor de tecnologia financia as milícias, ainda que a guerra civil do país tenha terminado em 2003, 5,5 milhões de mortos, o conflito mantém-se na região em torno da extração de minérios como o Tântalo (armazenamento de energia), o Tungstênio (vibração de celulares), Estanho (solda) e Ouro (conectividade da fiação), todos essenciais à fabricação de gadgets atuais como notebooks, smartphones e tocadores do tipo Ipod. Como anda a campanha de denúncia, transparência da procedência da matéria prima, e boicote a empresas que usam desses minérios?

Questão 4 – Relações de Trabalho: A tese que a sociedade da informação gera uma ampla gama de postos de trabalho/serviços de qualidade nunca passou de um mito, reservado a um minúsculo contingente de programadores, a situação atual do exército das atendentes de telemarketing é um exemplo claro, um serviço do século XX e XXI, com relações de trabalho que remontam o século XIX. Soma-se a isso uma série de novas profissões e formas de relação entre capital versus trabalho que não promovem vínculos e segurança aos trabalhadores. O ápice desse exemplo é a jornada de 12h dos ²jogadores chineses de Warcraft, acumulando ouro virtual a ser vendido para jogadores ocidentais. Quantas reivindicações e campanhas a rede já propôs a OIT?

Com a palavra a sociedade da informação.

¹ “5,5 milhões de Congoleses morreram, mas veja o lado bom, seu Smartphone vibra.” https://relatividade.wordpress.com/2011/05/01/2182/;

² A situação dos jogadores chineses de Warcraft serão um post futuro meu, após terminar de ler o relatório que o Banco Mundial produziu sobre a situação.

* Post sem revisão;

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7 comentários sobre “Quatro indagações constrangedoras para a esquerda da Sociedade da Informação

  1. Luciano Alvim disse:

    Não precisa ir tão longe em relação às relações de trabalho. Jornalistas que trabalham no interior já acumulam diversas funções, desde fotógrafos (com câmeras cybershot) a editores on-line (que teoricamente seria um posto de trabalho, mas é executado por um jornalista que entende de computadores).

    • Luciano Alvim disse:

      Também queria falar sobre essa questão do World of Warcraft.

      Já vi diversas reportagens falando sobre esse caso, e em nenhuma delas a Licença de Usuário Final nem os Termos de Uso do jogo são citados.

      2. You agree that you will not, under any circumstances:
      B. exploit the Game or any of its parts, (…) for any commercial purpose, including without limitation (…) (b) for gathering in-game currency, items or resources for sale outside the Game;

      (Grifos meus, link: Terms of Use)

      Ou seja, o comércio de Gold é ilegal de acordo com os termos propostos pela Blizzard, empresa responsável pelo jogo.

      Se já não fosse ilegal o suficiente empregar presos para “trabalhar” num jogo online, pior ainda é saber que esse trabalho já é previsto e proibido logo no início, quando você clica em “Agree” aos ToU e EULA.

      É ilegal como o tráfico de drogas, mas ainda assim os jogadores compram ouro, desestabilizando a economia dentro do jogo e contribuindo com essas jornadas de trabalho escravo (bom, se olhar por esse prisma, comprar qualquer coisa Made In China contribui com isso também).

      • Luciano,
        Tem uma matéria da Galileu que cita a licença e a proíbição, mas não aprofunda o papel de sites e comunidades que criaram condições operativas (via cartão de crédito) para o tráfico de ouro virtual.
        Estou lendo um doc do Banco Mundial que aborda a questão toda., claro que vendo o caso como uma possibilidade de senvolvimento e geração d erenda para países pobres com baixa escolaridade.
        Abraço,
        Lucio

    • Olá Luciano,
      Sem dúvida, além da criação de novos postos sem nenhuma garantia e segurança trabalhista (no sentido amplo), tem também a junção entre vários apartir de acoplamentos tecnológicos, como de certa forma tu citas no comentário.
      Abraço,
      Lucio

  2. Luciano Alvim disse:

    Favor deletar o comentário acima, esqueci de fechar o link.
    (WordPress não tem preview, daí não dá pra ver como vai ficar a resposta. Desculpe o incômodo).
    Obrigado.

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