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“O Brasil tem mania de colonizar as redes sociais” @gabizago no IHU

Gabriela Zago

Gabriela Zago graduou-se em Jornalismo pela Universidade Católica de Pelotas e em Direito pela Universidade Federal de Pelotas. É mestre em Comunicação e Informação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Entrevista ao ótimo IHU.

HU On-Line – O Twitter e outras redes sociais foram amplamente utilizados na campanha eleitoral deste ano. Como você analisa o uso dado pelos políticos às redes sociais de informação no Brasil?

Gabriela Zago – O uso dos políticos ainda está muito em fase de teste para dizermos se vai funcionar ou não a estratégia que eles estão traçando. Muitos não explorando as potencialidades. Outros interagiram com o público e souberam trabalhar com a ferramenta. Por exemplo, o candidato Plínio de Arruda Sampaio. Quando não era convidado para os debates principais, opinava sobre o que estava sendo discutido, abria a TweetCam e postava ali o que não estava podendo participar também, não deixava de expressar a opinião dele. Alguns políticos souberam utilizar muito bem, fizeram sucesso, até fizeram campanhas virais na internet.

IHU On-Line – Pela proporção do crescimento do uso do Twitter no Brasil e no mundo, podemos dizer que estamos “falando pelos dedos”? Estaríamos, então, voltando a uma espécie de cultura de transmissão oral de informação e conhecimento?

Gabriela Zago – O Twitter tem um papel complementar em relação às outras formas de comunicação. Mas também não substitui outros meios, outras formas de comunicação. Até porque a utilização da internet não atinge toda a população. A cultura de se comunicar por escrito e por pequenas frases, porque são 140 caracteres de cada vez, é algo muito interessante porque faz com que novas técnicas de comunicação se desenvolvam. É preciso saber se comunicar de forma curta, é preciso pensar o que dizer para caber naquele espaço. A mudança vai mais propriamente nesse sentido.

IHU On-Line – Com as possibilidades do Twitter, podemos afirmar que estamos caminhando para um futuro pós-imprensa?

Gabriela Zago – Acho que não exatamente. Estamos, provavelmente, caminhando para um futuro em que a imprensa vai ter cada vez mais um outro caminho para contestar, reverberar, repercutir aquilo que está sendo discutido em outros canais. Porém, ainda vai haverá uma separação entre o jornal e o Twitter, digamos assim.

IHU On-Line – Os usuários do Twitter, em geral, pensam que este serviço é livre, que dá a sensação de liberdade de expressão. Mas como podemos analisar a empresa que o administra? O que ela faz com os esquemas de comportamento expressados pelos tweeters?

Gabriela Zago – A questão da liberdade dele é um pouco relativa. A empresa que administra o Twitter está querendo ganhar dinheiro, tanto que agora tem os tweets promocionais. Além disso, eles têm regras extremamente restritas de como usar a marca, proíbem as pessoas de usar a palavra Twitter em outros lugares, fora os do próprio site. Então tem todo esse aspecto fechado da empresa. Ela até cria a sensação de que as pessoas podem falar abertamente no Twitter, mas ele é um espaço como qualquer outro. Se alguém falar alguma coisa ofensiva vai ser responsabilizada por isso.

IHU On-Line – Muito se fala no controle da internet. Depois das eleições, o Twitter foi alvo de discussão devido ao fato de que alguns usuários manifestaram opiniões preconceituosas no microblog. O que você pensa sobre esse possível controle da internet?

Gabriela Zago – Não é preciso ter um controle formal e central. Os próprios usuários do Twitter se encarregam de fazer esse controle. Então, quando Mayara Mancuso falou uma frase preconceituosa no Twitter, achando que podia falar qualquer coisa que ninguém ia ver, aquilo foi visto pelas pessoas e repercutiu de uma forma que talvez ela nem imaginasse que poderia repercutir. Isso mostra que a própria rede estabeleceu um controle daquilo que foi dito.

IHU On-Line – No Brasil, os repórteres do CQC têm mais seguidores do que os principais jornais. O que isso significa?

Gabriela Zago – Tenho observado, pelo menos o que tem sido postado no Twitter sobre alguns acontecimentos jornalísticos, que existe uma cultura bastante grande no Brasil de postar piadas e comentários engraçados no Twitter. Talvez o fato de seguir bastantes apresentadores de um programa humorístico seja o reflexo dessa cultura de se postar bastantes coisas engraçadas no microblog. É provável que isso reflita o perfil das pessoas que usam a ferramenta no Brasil, mais para essa parte de humor do que propriamente para o jornalismo.

IHU On-Line – Por que o Twitter é tão popular no Brasil?

Gabriela Zago – Não sei se é o caso do Twitter, mas o Brasil tem mania de colonizar as redes sociais. Se uma pessoa usa, vai todo mundo usar. Isso aconteceu com o Orkut, no início apenas queriam passar o número de estadunidenses, depois tomaram conta. Mas esse foi o primeiro fator que fez com que essa rede social se popularizasse por aqui. O Twitter recebeu da mídia um forte destaque, principalmente a partir do ano passado quando começou a ser notícia na TV, nos jornais. Esse destaque contribuiu para retroalimentar e fazer com que crescesse ainda mais no país.

IHU On-Line – Quais são as diferenças do uso dos brasileiros no Twitter em relação ao uso de usuários de outros países?

Gabriela Zago – Os brasileiros costumam usar bastante para informação muito mais do que para conversação. No ano passado, Raquel Recuero e eu fizemos uma pesquisa onde identificamos isso, ou seja, que o brasileiro costuma usar bem mais para compartilhar informação ao invés de conversar com outras pessoas. Essa é uma característica específica do perfil do público daqui. Também vejo mais essa questão do humor em relação às notícias, ao invés de fazerem comentários sérios, o público brasileiro preferem fazer piada.

IHU On-Line – Por que no Brasil é tão importante colonizar as redes sociais?

Gabriela Zago – Estamos num país que não é tão famoso, que não é tão rico, tão grande. Porém, é um dos países que mais usam as redes sociais no mundo e tem essa coisa do orgulho de ser brasileiro, de querer mostrar o Brasil, de querer mostrar que é do Brasil. Outros países não têm interesse em fazer isso dessa forma. E, ao querer mostrar que é do Brasil, o público tenta reunir mais brasileiros e tentar colonizar o meio pela quantidade.

IHU On-Line – Como você analisa a forma como os veículos de comunicação estão fazendo uso do Twitter?

Gabriela Zago – Inicialmente, eles estavam fazendo um uso bastante simplório, digamos assim, só colocando manchetes e links. Atualmente, cada vez mais eles têm se apropriado da ferramenta de forma criativa, superando o potencial de interatividade. Tem veículos que criam perfis nos quais interagem ou respondem algumas dúvidas dos leitores, retuitam outros espaços. Tudo ainda é uma questão de experimentação, não existe um modelo para usar o Twitter, mas já tem alguns usos bastante interessantes.

IHU On-Line – O Twitter é um novo espaço para discussões políticas?

Gabriela Zago – É mais um espaço. Acho que talvez os blogs sejam mais propícios para essas discussões políticas. Isso porque os 140 caracteres do Twitter são limitadores. Não é possível fazer uma aprofundada discussão política. Porém, ele é mais um espaço, principalmente em função da quantidade de informação que circula, da importância que se dá aos Trending Topics [TT’s]…

IHU On-Line – E qual é a importância dos TT’s para os brasileiros?

Gabriela Zago – Os TT’s são uma espécie de reflexo do que está sendo dito. Este espaço está sendo usado como uma ferramenta de manifestação política. Há muitos casos de mobilizações para que determinados assuntos apareçam lá. No entanto, isso vai desde “#JonasBrothersnósamamosvocês” até o apoio a um determinado candidato ou campanha ou evento. Os TT’s refletem aquilo que está sendo discutido. Ele tem um papel importante para mostrar o que está sendo discutido neste momento, mas também para mostrar aquilo que se gostaria que estivesse sendo discutido, mas que não recebe destaque em outros espaços fora do Twitter.

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