Eleições

Após “década da esquerda”, cai a desigualdade na América Latina

É uma fórmula política óbvia e revolucionária ao mesmo tempo, que transformou a política latino-americana na última década de consolidação democrática. Dilma Rousseff, com toda a certeza, está prestes a confirmá-la com uma vitória mais ou menos garantida no segundo turno das eleições presidenciais no Brasil. A fórmula: melhore a vida das camadas sociais mais necessitadas e lhe agradecerão nas urnas.

Dilma e seu povo.

Por Andy Robinson – La Vanguardia – via @AnaluY do Saladinha Brasileira

Tachada de populismo insustentável em alguns países, enquanto em outros recebeu o beneplácito do Fundo Monetário Internacional, funcionou na Venezuela, Brasil, Equador, Uruguai, Bolívia e Argentina, onde os partidos de esquerda ganharam repetidas eleições. No Chile, os excelentes resultados na luta contra a pobreza não evitaram a derrota eleitoral do governo de esquerda em 2009.

“Os governos de esquerda foram mais eficazes na hora de reduzir a pobreza e a desigualdade do que outros governos da América Latina, sejam contemporâneos ou do passado”, diz Nora Lustig, economista da Universidade de Yulane (Nova Orleans) e editora do novo livro “Declining inequality in Latin America” [O declínio da desigualdade na América Latina].

Entre 2002 e 2009, um período de êxito para a esquerda no continente, a desigualdade diminuiu em 12 das 17 economias, com uma redução da pobreza “mais acelerada que nunca”, indica Lustig. Isto vale para todos os governos de esquerda, embora a estudiosa acredite que os sucessos de governos “mais populistas como Venezuela ou Argentina são menos sustentáveis porque se baseiam em políticas fiscais menos disciplinadas” em comparação com os governos social-democratas de Brasil, Uruguai e Chile.

O entorno econômico ajudou. O boom dos preços das matérias-primas e do petróleo representou um crescimento econômico excepcional na região, interrompido brevemente pela crise de 2008. Ele gerou mais empregos e mais margem para gastos públicos. Mas há uma diferença de outros períodos de crescimento robusto: os governos de esquerda “atribuíram uma parte maior de seu orçamento aos pobres do que governos anteriores”, diz Lustig.

O Estado recuperou o papel de motor de redistribuição e ação social “que nos anos de políticas mais neoliberais havia sido atribuído às ONGs”, afirma a ministra do Desenvolvimento do Equador, Jeanette Sánchez.

E isso deu dividendos políticos: sucessivos êxitos eleitorais na Bolívia, Equador, Venezuela, Brasil, Uruguai e Argentina. “As transferências para os pobres deram maior influência no processo político a grupos tradicionalmente marginalizados na democracia”, diz Lustig.

No Brasil, o Bolsa Família – programa antipobreza que canaliza ajuda em dinheiro para 11 milhões de famílias pobres – é outra prova da eficácia da fórmula. No mapa eleitoral, a marcha vermelha do Partido dos Trabalhadores é mais intensa nos bairros populares das grandes cidades e no nordeste rural, onde milhões de famílias se beneficiam do programa que distribui e 20 a 180 reais por família (de 10 a 80 euros), condicionados à escolarização infantil e à frequência a centros de saúde.

A pobreza brasileira caiu de quase 40% em 2002, quando Lula ganhou as primeiras eleições, para 24% em 2009. O coeficiente Gini, que mede a desigualdade em uma escala de 0 a 1, caiu rapidamente de 0,59 para 0,54. O programa de Lula ajuda os 40 milhões de brasileiros mais necessitados na medida em que a criação de empregos e aumentos do salário mínimo incorporaram outros 17 milhões a uma nova classe média. “Nós que temos rendas mais altas mantivemos nosso nível de vida com Lula, mas os de rendas menores melhoraram muito mais”, afirma Sérgio Soares, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, em Brasília.

Isto dá resultados eleitorais. “Rousseff é uma candidata fraca, uma tecnocrata sem encanto pessoal, mas vai ter uma vitória eleitoral gigantesca, e isso tem a ver em grande medida com o Bolsa Família”, afirma Soares. “Muita gente no nordeste está consciente de que Lula os salvou da desnutrição.”

O mesmo acontece no Equador, onde a duplicação do orçamento para programas coincidiu com um índice de popularidade entre 55% e 70% para o presidente Rafael Correa e duas vitórias eleitorais em dois anos.

Na Bolívia, onde a maioria do eleitorado é de indígenas de baixa renda, ” se conseguiu estreitar a diferença entre indígenas e não indígenas “, diz Lustig. E isso explica em parte a vitória arrasadora de Evo Morales nas eleições de dezembro de 2009, com uma maioria ampliada em relação a sua primeira vitória em 2006.

Na Venezuela, a fórmula tinha funcionado muito bem em sucessivas vitórias de Hugo Chávez, graças ao voto popular. De fato, segundo Lustig, os resultados venezuelanos em políticas antipobreza foram os mais significativos na primeira metade da década. Mas uma inflação elevada provocada pela crise e a queda do preço do petróleo podem ter ameaçado o êxito social da esquerda venezuelana, com seu correspondente dividendo eleitoral.

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