Capitalismo, Cultura, Livros, Movimentos Sociais, Política

Marx, a universidade e o serviço público.

“Mas infelizmente, há horas em que devemos esquecer nossos medos, nossos fantasmas, nossos traumas, e sentir-se limpo de toda a sujeira que o mundo nos incrustou. Ver céus azuis, e lembrar-se que sempre há um próximo bom combate.” Leal.

(Alguém está trabalhando para produzir a riqueza, e os senhores, estão incrustados em cada um de nós, a consentida internalização é a famosa diferença entre hegemonia e dominação que Baudrillar escreveu)

Encaminhei ontem um email sobre o livro “O Capital de Marx – Uma biografia” (post abaixo) para algumas pessoas e listas, entre elas a da [ufpel_cienciasociais] Curso de Ciências Sociais da Universidade Federal de Pelotas, do qual tive alguns retornos por email (todos de boa), hoje pela manhã resolvi colocar mais alguns elementos, os quais reproduzo abaixo.
Um abraço,
Lucio Uberdan

“O Capital de Marx – Uma biografia”

Não é um livro grande, mas ainda assim nos proporciona elementos interessantes para pensarmos o momento histórico da produção da obra O Capital, para além dos elementos teóricos do mesmo, ainda assim no capítulo dois/três o autor já dedica-se mais a economia política existente no trabalho de Marx.

O livro também me faz pensar bastante sobre as pautas políticas dentro da universidade (algo que a tempo me incomoda), bem como, o modelo de serviço público adotado no Brasil. Falamos aqui de Marx, universidade e serviço público, ou seja, de “produção de conhecimento”. As pautas políticas universitárias e o serviço público são interessantes quando pensadas a luz da experiência de vida e produção intelectual de Marx, essa relação deixa-me bastante pensativo cada vez que escuto um comentário na Universidade do tipo: “falta estrutura. falta isso, falta aquilo”.

1 – O que teria sido capaz de produzir Marx (produção já relevante) se tivesse um bom ambiente de trabalho, um bom salário (professor com doutorado – Marx era doutor), sala com ar-condicionado, bolsistas, funcionários administrativos e segurança no emprego (+- 35 anos é o período da propriedade “privada” praticamente irrevogável sobre um bem público que um cidadão com títulos irá desfrutar pois teve condições privilegiadas de estudar na sociedade capitalista).

2 – A universidade em si, mas melhor, parte da comunidade universitária produz muito pouco com a estrutura que tem. A exceções sem dúvida.

Voltamos a vida de Marx no livro:

A morte de 3 de seus filhos ainda muito pequenos, estava associado diretamente a insalubre vida que levavam frente a invernos rigorosos, Engels comenta: “Se houvesse uma maneira de você e sua família se mudarem para uma residência mais espaçosa, em um distrito mais salubre”, na época Marx, Jenny e as crianças estavam em um apartamento de dois cômodos, em um dormia toda a família, o outro servia de gabinete de estudos, quarto de brincar e cozinha. Em profunda miséria, com a mobília quebrada e a porta constantemente recebendo a visita dos “credores enfurecidos”, Marx retornou por carta a Engels em fevereiro de 1852, “há uma semana atingi o ponto aprazível que me impossibilita de sair porque meus casacos estão penhorados, e não mais posso comer carne pela falta de crédito” e mais, “durante os últimos 8 ou 10 dias tenho alimentado minha família unicamente com pão e batatas, e não é garantido que consiga algo hoje”.

A estrutura da Universidade é paga com impostos geralmente daqueles que não conseguem disputar uma vaga pública – um problema de estado é verdade, mas ainda assim, um problema da retrógrada, gananciosa e corporativista pauta dos movimentos universitários. Presenciamos de forma clara, a mais valia extraída do trabalhador pobre, não concursado – que não tendo estudo para tal, não disputa com condições as vagas existentes, mas ainda assim, produz a riqueza para pagar a manutenção “luxuosa” privatizada por uma casta titularizada que muito pouco faz – produz intelectualmente e politicamente para mudar essa situação.

Após o concurso, a vaga pública deixa de ser pública, mas “privada” durante 35 anos por um cidadão com títulos – seu trabalho não tem “controle popular “algum do trabalhador pagante do mesmo, seria por isso então que os movimentos universitários clássicos batem tanto no PROUNI e no aumento de alunos/professor – REUNI por exemplo? Agem estes como a OAB na garantia de uma não inflação de títulos, criando motivos restritivos – ou seja, diminuindo o aumento de possíveis concorrentes vindo do povo pobre trabalhador? Ou seria o temor pelo aumento de participação “trabalho” e da cobrança social que esse aumento numérico poderia forçar a ter? Mais alunos em aula, mais pressão sobre o trabalho? Não sei. Agora preocupação pedagógica não deve ser, pois muito pouco de pedagogia presencio na universidade – somos “medidos” ainda por provas individuais ao final de 2 meses mais ou menos – 8 a 10 questões, algumas de marcar, isso é patético.

Não me alongando, seria necessário repensar o serviço público, e as pautas dos movimentos universitários, sabendo que essas como hoje apresentam-se, são puramente capitalistas e totalmente descoladas da realidade da grande maioria do povo brasileiro, ainda assim, poderão mudar e realmente serem dignos do apoio e controle público e popular, mas até lá o vetor de descrédito do serviço público na grande maioria da sociedade seguirá aumentando, e isso não é obra de setores que buscam privatizar a universidade, ou da reitoria ou dos governos, mas sim, da falta de trabalho claro para com a sociedade, falta de controle popular sobre um bem público já “privatizado”, falta de produção intelectual alicerçada nas necessidades reais da população local e falta de participação política de massa, não mais de gabinete.

Um abraço,
Lucio Uberdan

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