Livros, Política

Aproveitando uma insônia para falar do “O Capital de Marx – Uma biografia” , livro do escritor e jornalista britânico Francis Wheen – “A Gestação” – Iª parte.

Uma perspectiva pessol e por capítulos de “O Capital de Marx – Uma biografia”.

 

Já faz alguns dias que a leitura desse belo livro chegou ao fim, com merecidos retornos e releituras de passagens específicas, ainda assim tinha faltado-me tempo para comentar e sugerir a leitura do mesmo, aproveito agora frente a uma insônia (Ter 18 Set, 5:10) e um certo descrédito para com o dia – daqui escuto o som de uma chuva batida a vento, a umidade está superior a 95%, ainda bem que não esta frio – 13°, ainda assim um dia necessário, mas não muito sugestivo para andar nas ruas de Pelotas.

Temos portanto uma biografia Marxiana, não uma biografia de Marx em si, mas sim, de sua “grande obra-prima” – O Capital como denominou o próprio.

Frances Wheen dividi a biografia em 3 partes – 1) Gestação; 2) Nascimento; 3) Vida Póstuma; abordando assim os 3 momentos centrais da “vida” dessa obra. Ainda antes de gestação, na introdução, ele recorda a solicitação de Marx em 1867 para que Engels lesse “A obra-prima ignorada” de Honoré de Balzac, o livro conta a história do pintor Frenhofer que após 10 anos pintando um quadro que sonhava ele revolucionaria a arte, dá o mesmo por acabado e apresenta-o aos colegas Poussin e Porbus, esses ficam horrorizados com o que enxergavam, o quadro era um emaranhado de cores e linhas aleatórias. Frenhofer escuta dos amigos que logo cairia em razão, que de tanto pintar e repintar por 10 anos o mesmo quadro, nada mais do mesmo presenciava-se – “do retrato tantas vezes pintado, nada mais restava”, possesso, Frenhofer insulta os amigos, corre todos do atelie, queima seus trabalhos e mata-se. De certa forma Marx anteviu a dedicação que colocaria em sua obra-prima, a dificuldade de término e a indiferença de como seria recebida na época em geral, e pelos trabalhadores da época – verdadeiros motivadores e merecedores daquela obra. Vale citar que a narrativa descrita por Balzac, “A obra-prima ignorada”, seria nada mais que uma pintura abstrata do século XX (como bem comenta Marshall Berman), para além de nada dizer, o quadro de Frenhofer era na verdade a visão de um futuro ainda distante mas inevitável, assim como os escritos de Marx ainda distante dos trabalhadores da época, mas possivelmente inevitável e preciso na análise do funcionamento do capitalismo no século XX.

Em “gestação”,1º capítulo, tem-se uma seqüência de situações que vão dando-nos os contornos pessoal e social de Karl Marx, a aproximação a poesia e a literatura (Shakespeare, Dante, Goethe, Sterne, etc…) o seguinte encontro com a filosofia e a história (Demócrito, Epicuro, Winckelman, Bacon, Hegel, etc…), a vontade de escrever e lecionar, seu casamento com Jenny Von Westphalen (sua companheira pela vida inteira e seu grande amor como nos conta o filósofo Leandro Konder no livro “Sobre o Amor” – em breve comentarei aqui), as constantes mudanças a procura de trabalho – “o jornalismo de Marx caracterizava-se por uma estouvada beligerância que explica porque passou grande parte da vida adulta no exílio e no isolamento político”, as críticas fervorosas e as inimizades e contendas públicas, a amizade com o jovem indústrial Engels, um amigo do qual não tinha segredos, que mandava-lhe quando podia recursos financeiros, “inquietava-se com sua saúde e continuamente advertia-lhe para que não negligência-se os estudos”, na carta de Engels a Marx de 1844 (a mais antiga) já cobrava Marx por um livro: “assegure-se que o material que reuniu seja em breve apresentado ao mundo. É um momento de agitação Deus bem o sabe”, meses depois retoma em nova carta: “procure terminar o livro de economia política mesmo que haja nele muita coisa que não o satisfaça, não importa; as mentes encontram-se amadurecidas e devemos malhar o ferro ainda quente (…) faça como eu, imponha-se uma data” – ineficaz, Marx levaria ainda 20 anos para concluir o 1º volume de O Capital.

Marx teve com Jenny Marx 6 filhos, em 1849 esperavam já o quarto, em 1855 já 3 haviam falecidos – Guido, Franciska e Edgar – convulsões, bronquite e tuberculose seriam as causas, desvelando as enormes dificuldades que Marx vivenciou junto com sua família durante “toda sua vida”, questão bem enfocada por Wheen durante todo o capítulo. Fica claro que a própria gestação do que seria a mais “bem acabada” analise sobre o Capitalismo, também foi uma das grandes vítimas do mesmo, ainda que consciente, o Capital de Karl Marx foi forjado aos golpes do que mais claramente ele nos mostrou, a realidade desumana que compõem e da liga ao modo capitalista de “ser” e “existir”.

A morte de 3 de seus filhos ainda muito pequenos, estava associado diretamente a insalubre vida que levavam frente a invernos rigorosos, Engels comenta: “Se houvesse uma maneira de você e sua família se mudarem para uma residência mais espaçosa, em um distrito mais salubre”, na época Marx, Jenny e as crianças estavam em um apartamento de dois cômodos, em um dormia toda a família, o outro servia de gabinete de estudos, quarto de brincar e cozinha. Em profunda miséria, com a mobília quebrada e a porta constantemente recebendo a visita dos “credores enfurecidos”, Marx retornou por carta a Engels em fevereiro de 1952, “há uma semana atingi o ponto aprazível que me impossibilita de sair porque meus casacos estão penhorados, e não mais posso comer carne pela falta de crédito” e mais, “durante os últimos 8 ou 10 dias tenho alimentado minha família unicamente com pão e batatas, e não é garantido que consiga algo hoje”, é nesse cenário que de certa forma já ensaiava os personagens da obra o Capital, uma “obra que seria um vasto compêndio que desnudaria os vergonhosos segredos do capitalismo”, mas que seguidamente era relegada a gaveta na dedicação de dar luz a outros escritos como o 18 de Brumário de Luís Bonaparte, ou ficava sem progressão por contendas políticas com os que chamava de “falsos messias socialistas”, Marx acreditava que esses deveriam ser desmascarados: “estou engajado em uma luta de vida ou morte contra os falsos liberais” relatava a Engels. Esses motivos foram usados como desculpa para o atraso de décadas na conclusão do vol. I do Capital, deixando Engels inúmeras vezes insatisfeito e indignado com o tempo que Marx perdia com coisas sem sentido. Na realidade Marx deparou-se com uma obra que desenvolvia-se e complicava-se a cada página, que multiplicava-se por mil frente ao perfeccionismo de seu criador, contrastando com a falta de estrutura para produzi-la que o mesmo detinha.

De certa forma e resumidamente – Gestação, seria a dialética de relações, a práxis presente, a cultura e vida social em que esta inserido o judeu prussiano Karl Marx. Um período marcado por muitas viagens na busca e aventura de um novo trabalho – em algum novo jornal, a titânica vontade de escrever e formular uma obra consistente para os trabalhadores, o perfeccionismo nas teses, os envolvimentos com outros textos, as disputas políticas que dificultavam a dedicação a obra e a aproximação com a Associação Internacional dos Trabalhadores. Um período perseguido por dificuldades econômicas que dizimavam a sua saúde e igualmente a de sua família, mas não sua fibra e vontade de trabalhar.

O ano de 1866 Marx dedica para passar as 1200 páginas do primeiro volume do Capital a limpo, vitimado por problemas biliares, furúnculos e crises de hemorróidas, relutava ao tratamento com arsênico (remédio da época) dizia ele que “entorpece demais meu pensamento, e eu preciso manter a cabeça no lugar”, acabou por escrever de pé durante longas horas, Engels afirmava que pela aspereza de certas passagens da obra, “percebia-se os furúnculos”, Marx retrucava ao amigo: “em todo caso, espero que a burguesia se lembre de meus furúnculos até o dia de sua morte”.

Em a gestação, 1º capitulo “O Capital de Marx – Uma biografia”, desvela-se a pessoa Karl Marx, pensador, político, companheiro e pai, um trabalhador, fica presente também a inexistência alguma de um estrutura básica para a produção intelectual em que estava debruçado, nos emociona a forma como esse socialista superou as dificuldades ainda que com muitas perdas.

Em abril de 1867, Karl Marx parte para Hamburgo para entrega e supervisão da impressão do Vol. I de O Capital.

Em breve comento o capítulo II – “Nascimento”.
Um abraço,
Lucio Uberdan

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3 comentários sobre “Aproveitando uma insônia para falar do “O Capital de Marx – Uma biografia” , livro do escritor e jornalista britânico Francis Wheen – “A Gestação” – Iª parte.

  1. Olá amigo, como faço pra baixar este livro ?
    Uma resposta para “Aproveitando uma insônia para falar do “O Capital de Marx – Uma biografia” , livro do escritor e jornalista britânico Francis Wheen – “A Gestação” – Iª parte.”

  2. relatividade disse:

    Olá José Carlos, pois então, esse livro não ta na web, não da para baixar, eu comprei ele na livraria, é um livro de preço acessivel, não é caro não.
    Um abraço,
    Lucio

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