Cultura, Política

Concepções da CiberDemocracia em Pierre Lévy

As alterações culturais contemporâneas, atualizações das relações sociais (atualização relacional) que chamamos de cultura, estão em um ritmo acelerado (de certa forma) com as novas tecnologias de informação e comunicação. Na busca de um termo melhor, usa-se a palavra “cibercultura” para designar uma parte significativa dessas atualizações, pessoalmente prefiro a boa e velha palavra “Cultura”, sem a especialização, mas bem, isso não importa agora.

 

Uma das referências na “Cibercultura”, chama-se Pierre Lévy, francês, historiador, sociólogo, filósofo da Sorbonne e da universidade de Ottawa – Canadá, escritor de mais de uma dezena de livros no tema, pensador da ”Engenharia do Laço Social”, e construtor das “Arvores do Conhecimento”.

 

A poucos dias, uma querida amiga e socióloga de SP, que tem dedicado-se a leitura de Levy, fez uma cópia da entrevista deste no Roda Viva – 01/2001 (TV Cultura) e de uma palestra na Universidade São Marcos – SP (Desenvolvimento Humano e as Unidades das Ciências) e me mandou pelo correio, adorei muito. Estou agora olhando com calma a entrevista do Roda Viva, e anotando trechos que acho interessantes. Abaixo, coloco uma resposta de Lévy acerca da CiberDemocracia, resposta que em seus entremeios traz novidades e elementos para pensar. Boa leitura. (Lucio Uberdan)

 

Pergunta: Recentemente (2001) você foi Convidado por uma comissão da União Européia, para desenvolvimento de um relatório sobre democracia eletrônica. Poderia falar um pouco disso para nós?

 

Sim, muitas vezes, as pessoas imaginam a democracia eletrônica como um sistema de voto pela internet, e para mim, a democracia eletrônica não é nada disso. Se há um progresso de democracia graças à internet, não é porque as pessoas vão responder imediatamente, apertando um botão, a pergunta de outros, mas porque as pessoas poderão, por si, elaborar muito mais seus próprios problemas. E mais, como sabem, sou filósofo e, portanto, para mim, as perguntas feitas são mais importantes que as respostas. E que as pessoas possam elaborar suas próprias questões e problemas e, eventualmente, submetê-los às autoridades políticas, esta já me parece a maneira pela qual a democracia irá progredir. Uma outra forma de progresso da democracia, acredito que seja a maior transparência. Com as novas técnicas de comunicação, as pessoas podem muito facilmente, ter acesso a documentos complexos, ter acesso a informações que antes pertenciam a uma pequena minoria. E uma das…neste sentido, uma das propostas que fiz à Comissão Européia foi a possibilidade de imaginar fazer uma espécie de mundo virtual acessível pela internet, uma simulação, em três dimensões, representando os fluxos de dinheiro público que circulam por Bruxelas, pela Comissão Européia. Veríamos quanto dinheiro é enviado pela Alemanha, quanto dinheiro é enviado pela França, pela Itália, pela Espanha, etc… com as proporções, mas não através de colunas numéricas e, sim, de uma forma visual. E, depois, veríamos como o dinheiro é utilizado, como ele é gasto. Quanto vai para pesquisa, para agricultura etc.. e, dentro da pesquisa, por exemplo, quanto vai para pesquisa em Educação, Biologia, Química. Portanto, teríamos um tipo de visualização um pouco como um sistema sangüíneo, como se o dinheiro fosse sangue. Como o dinheiro é bombeado, de onde vem e aonde vai. E, em cada ramificação, em cada ponto de decisão quanto ao destino do dinheiro, as pessoas teriam acesso aos documentos que justificam a escolha de aplicar o dinheiro em um setor em vez de outro, e poderia também haver uma conferência eletrônica que discuta as escolhas. Acho que, hoje, os cidadãos precisam saber o destino de seu dinheiro e por que ele é gasto desta ou daquela maneira. Precisam de transparência. Isso é visível no mundo todo, com os escândalos financeiros. A justiça perseguindo as pessoas que fraudam, os políticos que fraudam nos escândalos financeiros etc. Vivemos numa época em que a sociedade, cada vez mais, quer assumir suas próprias questões e em que não se espera mais a salvação dos políticos, mas que eles sejam honestos, bons administradores e que prestem contas. Acho que, tal transparência financeira, que hoje o ciberespaço tornou possível, seria, originalmente, pra prestar contas, restabelecer a confiança entre a população e os políticos. Acho que cabe aos políticos dar o primeiro passo, dizendo: “Sim. Somos transparentes”. Acho que a Rede torna isso possível. Acabou o reinado do segredo, das decisões veladas, dos lobbies que manipulam os políticos nas sombras. Queremos saber tudo, por que e como são tomadas as decisões, hoje, isso é possível. Tecnicamente.

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4 comentários sobre “Concepções da CiberDemocracia em Pierre Lévy

  1. relatividade disse:

    Possível, sempre é possível, e mais possível ainda desaparecer da mesma forma com que apareceu, não quer dizer claro, que não deva ser tentado, formulado, experimentado. Penso que na internet a potência de impacto tem de ser avassaladora para colocar movimento especial em algo, com muitas coisas tendemos a não valorizar coisa alguma.
    Ainda assim a ideia é ótima. Vou olhar com alma, brigadão pelo recado.
    um abraço.

  2. Flavio disse:

    Olá. Bem interessante isso. Estou lendo os outros livros de Levy e ando bastante curioso sobre oq eu significa e como pode funcionar a ciberdemocracia.
    Gostaria de saber se você poderia indicar mais sites sobre o assunto.Abraços.

  3. Pingback: Pierre Levy – Tecnologias Multimédia de comunicação

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