Antropologia, Cultura, Desenvolvimento, Indígenas, Pesquisa, Sustentabilidade, Viveiros de Castro

Antropólogo Eduardo Viveiros de Castro – uma Amazônia, duas entrevistas e muitos, muitos índios (as).

Navegando na internet, encontrei duas entrevistas recentes do renomado e dedicado antropólogo brasileiro, Eduardo Viveiros de Castro . Eu de certa maneira venho me desafiando numa leitura e reflexão, ainda que de certa forma autoditada sobre os escritos de Viveiros de Castro. Incentivado por um grande professor (amigo que está longe, mas que eu incomodo por email), vim a conhecer alguns artigos e idéias desenvolvidas pelo Viveiros, assumo desde então o impacto que as mesmas tiveram para mim, essas vem sendo um alento e estímulo de vigor na antropologia em si, e na minha pessoa como humilde e cansado graduando desta.

As entrevistas citadas versam sobre a Amazônia. Para Viveiros “(…) de certa maneira, a Amazônia hoje é o centro do mundo. Sob vários aspectos, é o centro do mundo no imaginário mundial, ali é que está a maior floresta do mundo e também a maior quantidade de recursos genéticos que podem vir a constituir fonte de medicamentos e substâncias fundamentais. Verdade ou não, enfim, é o que se discute. Do ponto de vista geopolítico, é o centro do Brasil. Muitas pessoas não se dão conta de que somos caranguejos e moramos no litoral, mas que boa parte do fluxo de processos socioeconômicos está passando pela Amazônia.

A primeira entrevista é do final de junho de 2006, no boletim da Faperj, com o título “Índios vivem dilemas semelhantes aos que o Brasil enfrenta“. A segunda é da revista “E” nº 118 do SESCSP março de 2007, com o tema “A Amazônia e a urgência de legitimar as questões ambientais”.

Na primeira entrevista de 2006, Viveiros vais sustentar, fruto de suas pesquisas com os indígenas, que assim como o Brasil encontra-se frente a possibilidades de escolhas sobre modelos de desenvolvimento, de certa forma os índios também estão frente de suas escolhas acerca do desenvolvimento para suas comunidades e as farão (já fazem), e as mesmas, não serão um retorno ao primitivo, elemento esse que passa na cabeça de muitos ocidentais como o ideal para as comunidades (quem sabe um dia Povo) indígenas, os índios: “ (…) eles superaram o risco de extinção, resistiram e a maioria dos grupos sobreviventes apresentam crescimento vegetativo. E desmentiram a certeza de antropopólogos como Darcy Ribeiro, que há 20, 30 anos afirmavam que essas culturas seriam engolidas pela sociedade branca, condenadas a ser assimiladas como camponeses pobres (…)” e mais, “Hoje, constatamos algo um pouco diferente. Com a garantia de direitos à terra a partir da Constituição de 1988, várias comunidades rurais, particularmente nas regiões Nordeste e Sudeste, depois de séculos sendo obrigadas a negar, esconder ou esquecer sua ancestralidade nativa, passaram a reivindicar sua condição indígena, o território necessário ao pleno exercício dessa condição e a resgatar os valores culturais correspondentes”, explica o pesquisador e prossegue: “É um fenômeno jurídico, mas também sociocultural. Com o reconhecimento do direito sobre a terra, vários grupos índio-camponeses viram algo que podia ser usado a seu favor. Nessa redescoberta, muitos deles precisaram recriar linguagem e costumes perdidos, reinventar-se, criar um presente a partir de um passado em descontinuidade.” Nessa reivindicação da condição Indígena, mudaram os índios, mas também a antropologia (forma de percebê-los) “hoje, seja de que modo for, essas comunidades estão tendo que se haver com a cultura, a tecnologia e os valores da sociedade atual”. Conforme cita a entrevista: “Para lidar com tudo isso, Viveiros de Castro acredita na capacidade seletiva de absorção da cultura dominante pelo índio. O que leva o antropólogo a este otimismo é, mais do que seu conhecimento, a vivência com os chamados “povos da floresta”. “Eles nos vêem como idiotas hábeis: dominamos uma tecnologia avançada, mas somos ineptos e ignorantes nas relações humanas e sociais. Ou seja, eles estão mais interessados em nossa capacidade tecnológica do que em reproduzir nossas formas sociais, que em geral desprezam enormemente” e arremata: “Vejo que muitos grupos estão se armando com conhecimento para se tornarem interlocutores em pé de igualdade com os brancos (…) Eles estão tentando criar um currículo realista, uma espécie de método Paulo Freire de ensino superior, voltado para as condições da floresta. Algo como aprender biologia focando fauna e flora amazônicas, estudar economia observando a flutuação de preços dos produtos agrosustentáveis, como castanhas ou borracha, ter pajés dando aulas sobre seus rituais.” – Essa visão de tratar o conceito dos indígenas como um sistema filosófico capaz e igualmente poderoso de explicar o ponto de vista do indígena pelo próprio indígena, é bem desenvolvido por Viveiros em seu artigo/entrevista “Exceto quem não é”.

Na segunda entrevista, mais atual inclusive, Viveiros começa citando Marx – “A humanidade só coloca os problemas que pode resolver”, nela, os problema posto da crise ambiental e a própria vida do planeta serão abordados. O antropólogo transcorre sua visão sobre a percepção e uso ocidental capitalista dos recursos naturais, abordará concepções e ações acerca da tecnologia, produção e relações sociais indígenas e ocidentais, a tensão cultura x natureza participará dessa entrevista também. O tema ambiental será a questão que Viveiros vai dedicar mais intensidade, referênciando-se do seu projeto em conjunto com o Instituto Goethe da Alemanha, em desenvolvimento na Amazônia. vale a pena.

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