Cultura, Filosofia

Identidade(s) e diversidade(s) em Shaftesbury

Ontem depois da ida diária a Teia Ecológica para almoçar (restaurante cooperativa solidária – ovo-lácteo -vegetariano), eu e minha amiga Melina do Blog Feminino – fomos dar uma caminhada, ao passar por algumas bancas de revistas, vimos o número 2 da revista “Mente Cérebro e Filosofia – Fundamentos para a Compreensão Contemporânea da Psique”, fomos informados pelo jornaleiro que é uma série de 6 números – na revista, vi que serão apresentados temas da psicologia, psiquiatria e psicanálise, achei a revista interessante a adquire o número 2, a número 1 somente pelo correio, nela está estampado Platão na capa, a mesma aborda ainda – Aristóteles, Santo Agostinho e São Tomás de Aquino – O título é “Pensadores da Alma e das Paixões”.

 

Sobre a número 2 (que comprei), este vem com David Hume na capa, o título é “A Experiência Contesta a Razão”, e aborda o movimento filosófico do século XVII ocorrido na Grã-Bretanha, que alicerçado nos avanços de Newton e Boyle, contestavam o primado da razão (Descartes) em prol da autoridade da experiência. O número 2, vai assentar-se em Hume, Locke, Shaftesbury, Hobbes e Bekerley para consolidar esse novo entendimento filosófico moderno.

 

Abaixo, vou dividir com todos(as), citações e pequenos comentários meus (relativizando com o budismo), acerca das páginas 42 a 49, destinada ao terceiro filósofo – Shaftesbury – assinada por Luís F. S. Nascimento.

 

Anthony Ashley Cooper, foi o terceiro conde de Shaftesbury, para ele “a crença na própria existência é um traço natural”, esse pressuposto básico é um frontal ataque a “penso, logo existo” do contemporâneo francês Descarte, para Shaftesbury:

 

(…) o termo eu, já indicaria que temos alguma idéia daquilo que somos. Se podemos nos indagar onde eu estou ou o que eu sou, é porque já possuímos uma mínima noção do que somos, do contrário nem seríamos capazes de levantar essa questão. Por esta razão, ele critica os pensadores que tentaram provar sua existência (…) o problema não é investigar se sou, e sim o que eu sou ”

 

Diversidade e Diferença sobre o que eu sou?

 

Se tudo é diversidade, alteração e vicissitude, como falar em natureza humana? Levado ao âmbito do indivíduo, essa questão assume uma forma ainda mais explícita: o que garante a identidade pessoal? Ou seja, o que faz com que um homem seja aquilo que ele é? Como posso estar seguro de ser a mesma pessoa ao longo de toda a minha vida? (…) apesar das várias alterações, continuo com a convicção inabalável de que sou eu que as sofro e que, portanto, ainda sou idêntico a mim mesmo (…) os homens estão sempre mudando, porém há algo neles que permanece idêntico.”

 

O Budismo é uma filosofia de vida que articula com complexidade a espiritualidade e a ciência, em especial a física. No Budismo, aceita-se a existência de uma essência maior de cada homem e mulher, essa essência é responsável pela criação de nossas identidades, nossas identidades formam-se em períodos históricos relativos, e alteram nossa compreensão de mundo, essas, materializam-se em nossas práticas de vida; percepções de mundo acerca da sociedade, dos demais e de nós mesmos. Os longos períodos de meditação dos monges, em muito buscam “limpar” essas identidades e desvelar a essência formadora de nosso ser. A física quântica vai explicar de maneira muito semelhante essa essência e energia.

 

Diálogo Anterior:

 

O problema a ser resolvido é o seguinte: como conciliar a crença natural que temos em nosso eu e as alterações a que estamos sujeitos?” Para Shaftesbury, a chave para está questão está em um diálogo interno (Solilóquio), o qual “somos os nossos interlocutores”, essa prática teria 3 momentos: I) dissecação de si – olhar interno de nós mesmos; II) o teatro com nossas identidades entrando em em cena; III) o espelho de bolso para auto-contemplação. O solilóquio tem a função de “(…) criar (…) a figura de um examinador interno (…) um crítico interno (…) um tribunal severo (…) deve ser erigido dentro de nós (…) é graças ao trabalho da autocrítica que podemos estar seguros de sermos uma única e mesma pessoa ao longo de nossa vida”. Essa capacidade de conflito e diálogo interno, consegue diferenciar e unir as inúmeras “multiplicidades de opiniões, desejos e fantasias que existem em nós” em suma, “garantir uma unidade para toda a diversidade a que somos sujeitos. Se chamo de eu aquele fui alguns anos e esse que sou hoje, é porque posso me afastar desses dois personagens, assumir uma postura de um observador atento e, assim, estabelecer os laços que unem o primeiro ao segundo.”

 

Cidadãos do Mundo:

 

A questão o que sou eu? Não exigi uma resposta definitiva e acabada, mas um cultivo: uma prática. É a partir dela que iniciamos o diálogo interno, com ela nos desenvolvemos e nos formamos. Essa é uma atividade que só termina quando morremos: enquanto vivemos estamos sempre reformulando nossa identidade (…) a identidade é então um processo dinâmico de formação que se aperfeiçoa à medida que tomamos consciência de seu movimento.”

 

Numa brincadeira sobre “identidades” e “cultura de paz” com base no budismo, o Lama Samten cita um encontro com um amigo em estado de desespero, seu casamento havia terminado e sua visão sobre o mundo e o futuro por exemplo, eram as piores possíveis, sua companheira o havia abandonado, o mundo terminara-se em suas palavras. Passado algum tempo (meses), Samten encontra-se novamente com esse amigo, que o chama sorridente e brincando, então Samten lhe disse: – Que bom que estás bem, estás feliz. Tua companheira voltou! Não, ela não voltou disse-lhe o amigo.

 

Afinal, o que seria realmente essa mudança? a existência desse estado de desespero que desapareceu?

Quem somos afinal? Quantas identidades temos? Quem nos faz? Não perceber, ou apenas conviver com nossas identidades seria realmente um avanço? ou a comprovação de nossa limitação em encontrar nossa essência?

 

Perguntas, dúvidas, perguntas, dúvidas. Quanto mais lemos, mais dúvidas e incertezas desenvolvemos, pois, nosso leque pró-reflexão aumenta. O conhecimento é um vetor que ruma para a incerteza, caso contrário, não é de conhecimentos para reflexão que estamos nos alimentando, mas sim, de dogmas. Como afirmava Hanna Arendt sobre o funcionamento da ideologia:

 

“Subtraindo as pessoas ao perigo do exame crítico, ensina-se-lhes a agarrarem-se solidamente às regras de conduta, sejam elas quais forem, de uma dada sociedade, numa dada época.”

 

Espero que tenham gostado.

Bjos – Lucio Uberdan

 

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