Antropologia, Filosofia, Livros, Tecnologia

A inconstância da Alma Selvagem

Estou convivendo com uma certa felicidade por ter sido apresentado pelo professor Edgar ao livro Inconstância da Alma Selvagem. Livro do Antropólogo brasileiro Eduardo Viveiros de Castro.

Junto agora diariamente a necessária coragem para sua leitura.

Me é complexo ler a trajetória intelectual (coletânea de sua produção) que se encontra nessas 551 páginas, trajetória que envolvem “duas ou três intuições etnográficas que guiam” o pensamento re-arrumado pelo autor na busca de “dizer um pouco melhor o que já disse” anteriormente, e isso não é pouca coisa, mas, também é simples, pois Viveiros é daqueles que sabem lidar com a palavras, uma antropologia filosófica com um tanto de literatura e muita, mas muita criatividade, e ainda assim, uma etnografia incontestável.

A intensidade de ” A inconstância da Alma Selvagem – e outros ensaios de antropologia” encontra-se na idéia o qual eu aprendi com esse mesmo autor em um escrito anterior “O nativo Relativo”: “os problemas são radicalmente diversos” e o “antropólogo não sabe de antemão quais são eles”. Na antropologia de Viveiros, estamos a frente da “arte de determinar os problemas postos por cada cultura, não a de achar soluções para os problemas postos pela nossa”. Deste lado, o nativo antes de ser sujeito e objeto, “é expressão de um mundo possível”, uma “figura de Outrem”. Outrem, é “uma estrutura ou relação, a relação absoluta que determina a ocupação das posições relativas de sujeito e de objeto por personagens concretos”, outrem é o possível, afinal: “(…) ninguém nasce antropólogo, e menos ainda, por curioso que pareça, nativo”.

E mais ainda, agora já na “A inconstância da Alma Selvagem”:

” Esses conceitos são o resultado provisório de um trabalho desde sempre orientado por um desiderato maior: contribuir para uma linguagem analítica à medida (à altura) dos mundos indígenas, o que significa dizer uma linguagem analítica radicada nas linguagens que constituem sinteticamente esses mundos. Sua elaboração envolve forçosamente uma luta com os automatismos intelectuais de nossa tradição, e não menos, e pelas mesmas razões, com os paradigmas descritivos e tipológicos produzidos pela antropologia a partir de outros contextos socioculturais. O objetivo, em poucas palavras, é uma reconstituição da imaginação conceitual indígena nos termos de nossa própria imaginação. Em nossos termos, eu disse – pois não temos outros; mas, e aqui está o ponto, isso deve ser feito de um modo capaz (se tudo “der certo”) de forçar nossa imaginação, e seus termos, a emitir significações completamente outras e inauditas. A antropologia, como se diz às vezes, é uma atividade de tradução; e tradução, como se diz sempre, é traição. Sem dúvida; tudo está, porém, em saber quem se vai trair. Espero que minha escolha tenha ficado clara. Quanto a saber se a traição foi eficaz, eis aí uma questão que não me cabe responder.”

É a partir daqui, bem acompanhado, mas de certa maneira me sentindo só, com apoio em papel da caminhada de Viveiros aos mundos indígenas, caminho eu, ainda muito desajeitado, para pensar os mundos virtuais existentes no ciberespaço, esses outro(s) mundo(s) possível(eis), com suas figuras, expressões e linguagens de outrem.

Lucio Uberdan

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Um comentário sobre “A inconstância da Alma Selvagem

  1. berharp disse:

    A inconstância te trouxe para esse novo blog. Achei muito bom! Tá bem construído e pelo que vi tem mais o que ser explorado. Parabéns!
    Os mundos “digitais” criados no cyber espaço e suas desdobráveis tramas, de possibilidades quase infinitas, são muito difíceis de serem ligados à realidade “analógica”. Essa busca sempre me pareceu frenética, causando uma estranheza desde o início.
    Difícil a tua faina. Desejo-te sorte!
    Abração!

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