Cultura, Filosofia, Pós-modernidade, Pessoal

Carta a Jean Baudrillard – Muniz Sodré

Jean, não mais…

Duas semanas atrás, falando ao telefone com Jean Baudrillard, ele se mostrou afável e encantatório, como sempre ao longo de 27 anos de amizade bastante próxima. Pequenas queixas, sim: as dores causadas por um dos dois tumores que o acometeram e a aflição com as terapias invasivas. Há um ano, depois da suposição de que o mal estava sob controle, dera-se a recidiva, e ele me disse em Paris: “Muniz, la bête est réveillée”. A fera acordou… Ainda assim, em dezembro último, jantamos juntos — eu, ele, Raquel Paiva, Marine (sua mulher) e a família Maffesoli. Mas quarta-feira passada, Marine me deixou entender ao telefone que não havia mais esperanças.

Os amigos perdem um grande amigo, o mundo intelectual perde um pensador. Um pensador que deixa leitores, mas não seguidores, porque pertence à linhagem francesa de críticos da cultura debruçados sobre o limite das coisas, das formas, das representações, com um estilo único e inimitável. Um pensador da morte. Assim também foram Barthes, Lacan, Deleuze, por exemplo.

Num texto que fiz sobre Jean para o número especial que os famosos Cahiers de l’Herne lhe dedicaram em 2004, citei a propósito de sua obra uma recomendação de Gumbrecht, professor de literatura em Stanford (EUA): “Não acredite em nenhum ‘método’ ou (pior) ‘metodologia’ — não porque os métodos ou as metodologias sejam intrinsecamente maus, mas porque eles o impedem de pensar de modo independente e de desfrutar sua liberdade intelectual em uma dimensão de pensamento que não admita regularidades rígidas”.

Não que Baudrillard tivesse qualquer posição definida sobre métodos, mas ele achava que o real excede as suas representações possíveis, que o real é mais — podia até mesmo “desaparecer”, isto é, deixar morrer o sentido que lhe atribuíam. Não discordava de Dumézil: “O método é o caminho depois que se passou por ele”. E foi assim, inventando, chutando como Pelé, que ele traçou a genealogia da morte, da sedução, da ilusão, do monopólio discursivo da mídia. Foi assim, encantando como um sofista, filosofando com estilo próprio, escrevendo com a luz (era um filósofo-fotógrafo), que dissecou de forma única a modernidade tardia que atravessamos.

A Paris de que sei está hoje de luto.

Muniz Sodré – Sociologo e jornalista, professor titular da UFRJ

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2 comentários sobre “Carta a Jean Baudrillard – Muniz Sodré

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