Antropologia, Filosofia

Bruno Latour

!– @page { margin: 2cm } P { margin-bottom: 0.21cm } –> […] Os brancos não tinham razão, eles não eram os mais fortes quando desembarcaram na ilha. Seus canhões só atiravam uma vez em cada três tentativas, de nada serviam contra as flechas envenenadas. Seus motores estavam sempre em pane e deviam ser reparados a cada dia em um rio de graxa e de xingamentos. O Livro Santo de seus pastores permanecia mudo como uma tumba. As drogas de seus médicos agiam tão erraticamente que dificilmente se podia distinguir seus efeitos. Seus altos funcionários esperavam ser transferidos ou vencidos pela febre amarela. Seus geógrafos se enganavam sobre cada nome que eles atribuíam aos lugares familiares.

Seus etnólogos se ridicularizavam, a cada hora do dia, por suas gafes e grosserias. Seus mercadores não sabiam o valor de coisa alguma e punham no mesmo saco a os totens, os porcos selvagens, as castanhas de caju, todas as tralhas… Não, eles não eram os mais fortes, esses brancos não iniciados, tremendo de febre e que, no dizer dos nativos, fediam fortemente a peixe ou carne estragada. Entretanto, graças a eles a ilha tornou-se arcaica, primitiva, pagã, mágica, pré-mercantil, pré-lógica, pré-tudo. E eles, os brancos, tornaram-se o mundo moderno.

Donde a questão que se coloca nas bordas dos países devastados: como esse punhado de gente fraca, ilógica, vulgar e descrente, pode vencer as multidões bem religadas e bem policiadas? A resposta é simples. Eles foram mais fortes que os mais fortes porque desembarcaram juntos. Não, melhor que juntos. Eles desembarcaram separadamente, cada um na sua ordem e pureza…

O pastor só falava da Bíblia, à qual ele ligava toda a eficácia de sua missão. O administrador, com seus regulamentos e insígnias, relacionava todo seu esforço à missão civilizadora de seu país. O geógrafo, com os sábios, só falava da Ciência e de seu avanço. O mercador, entre os mercadores, atribuía todas as virtudes de sua arte ao ouro, ao tráfico e à Bolsa de Londres. O soldado, entre os soldados, só obedecia a ordens, despreocupado com o resto e atribuindo à Pátria o sentido de tudo o que ele fazia. O engenheiro, com suas máquinas, atribuía aos motores toda a eficácia do progresso.

Cada um acreditava estar em uma ordem à parte das outras e forte por suas próprias forças. É por isso que todos disputavam entre si e desprezavam uns aos outros. O administrador denunciava nos seus relatórios a avidez do comerciante. O sábio achava escandalosa a evangelização do pastor, o qual estigmatizava as sevícias da administração e o ateísmo do sábio. O etnólogo desprezava todos os outros, enquanto extirpava um a um os segredos dos nativos, tirando mitos e genealogias do nariz deles. Cada um se acreditava forte por causa de sua pureza — e muitos, com efeito, era uma gente corajosa que só pensava na fé, na insígnia, na Ciência ou na Bolsa.

Entretanto, todos o sabiam, eles só permaneciam na ilha graças aos outros. Muito fraco para fazer Deus sair de sua Bíblia, o pastor precisava dos soldados e dos mercadores para encher sua igreja. Muito fraco para impor a venda de totens apenas pela potência do ouro, o mercador precisava do padre e dos sábios para os tornar sem valor. Muito fraco para dominar a ilha apenas com o atrativo das ciências, o sábio precisava das pilhagens e da servidão, dos carregadores e dos intérpretes que lhe dava o administrador. Todos se ajudavam, sem querer confessá-lo e por debaixo do pano, sem nada perder de sua pureza (segundo os próprios), sem cessar de atribuir sua força a seus deuses domésticos — ouro, convicção íntima, justiça, rigor científico, racionalidade, máquinas, livros-caixa ou cadernos de notas…

Se cada um tivesse vindo em separado, teriam sido caçados pelos habitantes da ilha. Se tivessem vindo todos unidos, partilhando as mesmas crenças e os mesmos deuses, misturando as fontes de potência como os conquistadores antigos, teriam sido caçados mais facilmente ainda, visto que matando um deles, todos os outros seriam feridos, e duvidando de um só deus, os ídolos de todos os outros afundariam. Eles vieram juntos, cada um separado e isolado na sua virtude, mas todos sustentados pelo bando.

Com essa teia, infinitamente frágil, eles paralisaram todos os outros mundos, pescaram todas as outras ilhas e singularidades, dobraram por um tempo todas as redes e tranças. Eles não eram os mais fortes, eles não eram os mais razoáveis, eles não o são mais hoje em dia — aqueles que inventaram o mundo moderno.[…]

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