História, Literatura

Q O caçador de hereges – Luther Blissett

A poucos dias comecei a ler o livro “Q o caçador de hereges”, desde o primeiro dia que ouvi falar do livro e do autor fiquei com muita vontade de ler, na realidade Luther Blissett é um grupo que escreve junto e não uma pessoa apenas. O livro conta todo processo de revolta, intrigas, debates e acontecimentos no “xadrez” das reformas acontecidas na idade média, um misto de romance, ficção e muita pesquisa histórica, com mais 600 pag. é uma pressão desde o inicio, uma leitura gostosa que não dá vontade de parar. Abaixo uma das dezenas de cartas que curti. – Lucio Uberdan

Olheiro de Carafa(1521) – Carta enviada a Roma da cidade de Worms, sede da Dieta imperial, endereçada a Gianpietro Carafa, datada de 14 de maio de 1521.

Ao ilustríssimo e reverendíssimo senhor e patrão honradíssimo Giovanni Pietro Carafa, em Roma.
Ilustríssimo e reverendíssimo senhor e patrão meu honradíssimo.

Escrevo a Vossa Senhoria a respeito de um acontecimento gravíssimo e misterioso: Martin Lutero foi raptado há dois dias enquanto retornava a Wittenberg com salvo-conduto imperial.

Quando V.S. me encarregou de seguir o monge à Dieta imperial de Worms, não mencionou nenhum plano desse gênero; permaneço ansioso no aguardo de notícias, caso exista algo que tenha sido subtraído da minha atenção e de que eu deveria tomar conhecimento. Se, como creio, as minhas informações não eram incompletas, posso então afirmar que uma ameaça obscura e gravíssima paira sobre a Alemanha. Considero portanto essencial comunicar a V.S. quais foram os movimentos de Lutero e ao redor dele, nos dias da Dieta, e qual foi o comportamento do senhor dele, o Príncipe Frederico, Eleitor de Saxônia.

Na terça-feira 16 de abril, hora do almoço, a guarda da cidade instalada na torre da catedral sinalizou a som de trombeta, como de costume, a chegada de um hóspede de respeito. A notícia da chegada do monge já havia sido difundida na parte da manhã e muitas pessoas dirigiram-se ao seu encontro. O seu modesto veículo, seguindo o arauto imperial, era acompanhado de uma centena de pessoas a cavalo. O povo, aglomerado na rua, impedia que o cortejo avançasse rapidamente. Antes de entrar na albergaria Johanniterhof entre as alas do povo, Lutero olhou ao redor feito possesso, gritando “Deus será por mim”. A pouca distância, na albergaria do Cisne, estava hospedado o Príncipe Eleitor de Saxônia com o seu séquito. Desde as primeiras horas da sua chegada, começou uma vaivém da pequena nobreza, aldeões e magistrados, mas nenhum dos personagens mais importantes da Dieta tencionou comprometer-se visivelmente com o monge. Exceto o jovem langrave Felipe d’Assia, que submeteu a Lutero leves questões concernentes os hábitos sexuais na Babilonica, recebendo deste uma severa repreensão. O próprio Frederico o viu somente nas sessões públicas.

Aliás, não foram as sessões públicas de 17 e 18 de abril o palco das verdadeiras atividades, mas sim as conversações particulares e alguns episódios da permanência de Lutero em Worms. Como Vossa Senhoria já deve ter conhecimento, apesar da aversão que o jovem Imperador Carlos nutre pelo monge e as suas teses, a Dieta não conseguiu que se retratasse, nem tomou as devidas providências antes dos acontecimentos. Isto por causa das manobras habilmente orquestradas por alguns sustentadores de Lutero, entre os quais considero possível incluir o Eleitor de Saxônia, ainda que sem uma certeza absoluta, por causa do caráter subterrâneo e obscuro de tais manobras

– Na manhã de 19 de abril, o Imperador Carlos V convocou os eleitores e os príncipes para pedir uma tomada de decisão sobre Lutero, manifestando aos mesmos a própria amargura por não ter agido energicamente contra o monge rebelde desde já. O Imperador confirmou o salvo-conduto imperial de vinte e um dias, com a condição que o frade não pregasse durante a viagem de retorno a Wittenberg. Na tarde do mesmo dia, os príncipes e os eleitores foram convocados para deliberar sobre o pedido imperial. A condenação de Lutero foi aprovada por quatro votos sobre seis. O Eleitor da Saxônia certamente votou contra, e esta foi a sua primeira e única manifestação aberta em favor de Lutero.

– Na noite do dia 20 foram porém afixados, por desconhecidos, em Worms dois panfletos: o primeiro continha ameaças contra Lutero; o segundo declarava que 400 nobres haviam-se empenhado, sob juramento, em não abandonar o “justo Lutero” e a declarar a própria inimizade aos príncipes e aos romanistas e, acima de tudo, ao arcebispo de Mogúncia.

Este acontecimento deitou sobre a Dieta a sombra de uma guerra religiosa e de um partido luterano pronto para insurgir. O arcebispo de Mogúncia, assustado, pediu e obteve do Imperador a permissão para rever toda a questão, a fim de não rachar a Alemanha em dois e oferecer o ensejo de uma revolta. Quem quer que tenha afixado aqueles panfletos, alcançou o êxito de prorrogar a causa por alguns dias e de difundir temor e circunspeção quanto à eventual condenação de Lutero.

– Nos dias 23 e 24, portanto, Lutero foi examinado por uma comissão nomeada pelo Imperador para a oportunidade e, como V.S. já deve estar ciente, continuou recusando a proposta de uma retratação. Não obstante, o seu colega de Wittenberg que o havia acompanhado à Dieta, Amsdorf, espalhou a notícia que era iminente um acordo conciliatório entre Lutero, a Santa Sé e o Imperador. Por que, senhor meu ilustríssimo? Creio, ainda, por sugestão do Eleitor Frederico, para ganhar outro tempo.

– Assim, entre o dia 23 e o 24, houve grande alternância de mediadores para recompor a ruptura entre Lutero e a Santa Sé, representada aqui em Worms pelo arcebispo de Trier.

– No dia 25 houve um encontro particular, sem testemunhas, entre Lutero e o arcebispo de Trier que, como era previsível, frustrou toda a diplomacia dos dois dias anteriores. Lutero, particularmente, como já havia declarado durante as sessões da Dieta diante do Imperador, recusou-se “por consciência” a retratar as próprias teses. Ficou portanto sancionada uma ruptura irreparável e definitiva. Naquelas horas, pelas ruas da cidade, corriam vozes de uma iminente detenção de Lutero.

– Na noite do mesmo dia, foram vistos dois vultos envolvidos em capas dirigindo-se ao quarto de Lutero. O albergueiro reconheceu-os como sendo Feilitzsch e Thun, os conselheiros do Príncipe Eleitor Frederico. O que houve durante aquele encontro noturno? V.S. poderá talvez encontrar a resposta nos acontecimentos dos dias sucessivos.

– Na manhã do dia seguinte, 26, Lutero deixou sem alarde a cidade de Worms, com uma pequena escolta de nobres simpatizantes. No outro dia estava em Frankfurt; em 28 em Friedberg. Aqui, ele convenceu o arauto a deixá-lo prosseguir sozinho. Em 3 de maio Lutero abandonou a estrada principal, continuando pelas vias secundárias, alegando como motivo da mudança de itinerário uma visita a seus parentes, perto da cidade de Möhra. Induziu também os seus companheiros de viagem a prosseguir diretamente em outra carroça. As testemunhas dizem que, ao retomar a viagem em Möhra, estava sozinho no veículo, com Amsdorf e o colega Petzenstein. Após algumas horas, a carroça foi bloqueada por alguns homens a cavalo, que perguntaram ao condutor quem era Lutero e, reconhecendo-o, tomaram-no pela força e o arrastaram embora pelo mato.

– Para Vossa Senhoria resultará evidente que não é possível deixar de ver Frederico, o Eleitor da Saxônia, atrás de toda essa maquinação. Mas, caso V.S. tenha o zelo de não querer chegar a uma conclusão demasiadamente precipitada, permito-me apresentar-lhe alguns quesitos. Quem tinha interesse em retardar a condenação de Lutero, mantendo a diatribe em aberto? E, consequentemente, quem, para retardar a sentença, tinha interesse em atemorizar com a ameaça de um partido de cavaleiros prontos para defender o monge com a espada, contra o Imperador e o Papa? Finalmente, quem tinha interesse em colocar Lutero a salvo encenando um rapto, sem revelar-se abertamente e sem comprometer-se diante do Imperador?

Tenho o atrevimento de acreditar que V.S. também chegará à mesma conclusão do seu servidor. Respira-se um ar de batalha, meu senhor, e a fama de Lutero cresce a cada dia. A notícia do seu rapto desencadeou pânico e agitação indescritíveis. Mesmo os que não partilham de suas teses, reconhecem-no como uma voz prestigiosa da reforma da Igreja. Uma grande guerra religiosa está prestes a desencadear-se. As sementes que Lutero espalhou, arrebatado pelo ímpeto da convicção, já vão dar os seus frutos. Discípulos ansiosos para passar à ação preparam-se para extrair, com intrépida lógica, as conseqüências dos próprios pensamentos. Se a sinceridade é uma virtude, Vossa Senhoria me permitirá talvez afirmar que os protetores de Lutero já atingiram o objetivo de transformar o monge em uma máquina de guerra contra a Santa Sé, organizando ao seu redor um amplo séqüito. E agora, estão somente aguardando o momento mais oportuno para instaurar a batalha em campo aberto.

Nada mais tenho a dizer, a não ser que beijo as mãos de V.S., a quem de todo coração me recomendo.

Worms, no dia 14 de maio de 1521

o fiel observador de Vossa Senhoria Ilustríssima

Q.

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